O que você faz no banheiro?

 


Fora o tradicional? Eu acho que o banheiro é um local de introspecção. De certa maneira, tudo no banheiro nos devolve a nós mesmos: os espelhos, as paredes ladrilhadas... Tudo bate e volta. Nossa imagem, nossa voz, nossos ruídos. É o lugar para ir, se você quer se encontrar. Ideal para você e você ficarem íntimos. Nas plantas arquitetônicas muitas vezes identificam uma peça como “estar íntimo”, e é sempre o lugar errado: o verdadeiro estar íntimo é o banheiro. Não é preciso haver nada sexual entre vocês. Vocês podem nem se tocar.

 No banheiro você é o centro de todas as suas atenções. Você está cercado por você. Você é a sua obsessão, você só existe para você. “Tem gente”, é o que você diz quando está no banheiro e alguém quer entrar. Não “Tem eu”, “Tem gente”. E é o mesmo que dizer “Nós estamos aqui, concentrados em nós mesmos reverberando-nos, ecoando-nos – tem uma multidão!” Ou “Você está interrompendo uma comunhão, um concerto, um congresso, um rito de congraçamento, uma união mística... “Pois num banheiro, mais do que em qualquer outro lugar, tem sentido aquela idéia que a pessoa é ela e sua circunstância, só que a sua circunstância também é ela.

 Ou então não é nada disso.

No banheiro você está de volta à pia batismal. É isso. Mesmo que você só esteja lá para escovar os dentes ou procurar a aspirina, você está, simbolicamente, regredindo ao seu começo e ao começo da sua espécie. O banheiro é a pia ou o rio do batismo, é o útero da mãe, é o mar primevo do qual nossos antepassados saíram para esta nossa grande aventura sobre a terra – enfim, o banheiro é sempre uma volta á água, de onde emergimos purificados, mesmo que não tenhamos feito mais do que singelo xixi. “Water closet”, afinal, é um eufemismo correto. Mesmo antes da água corrente, na época do jarro e da bacia e do buraco no chão, o banheiro representava a fonte da vida que visitamos todos os dias e ...

 Ou então não é nada disso também.

O banheiro seria o grande equalizador social. Há, claro, banheiros de todos os tamanhos e tipos mas não existem muitas maneiras de estar num banheiro, como existem muitas maneiras de estar num quarto, estar numa sala de jantar ou estar numa sala de estar. O assento da privada pode ser acolchoado e zebrado mas isso não altera o que se faz sentado nele, que todo o mundo faz do mesmo jeito. Num banheiro as pessoas são reduzidas às suas necessidades e funções – ou seja, à sua igualdade. A banheira de um pode ser uma piscina com redemoinhos e saboneteira na forma de coquille St. Jacques e a de outro um tacho com um chuveiro em cima, mas você já notou como todas as pessoas molhadas se parecem? Todo banheiro seria, portanto, uma lição de humildade e democracia, e quanto maior e mais bem aparelhado o banheiro maior e mais convincente a lição, pois o dono teria a evidência diária de que de nada adianta, mesmo com o papel higiênico substituído por algum dispositivo a laser ele o estaria usando para o mesmo fim que você e eu. É nos banheiros que a humanidade descobre o que tem em comum.

 Ou então, ou então...

O banheiro é um lugar de fantasias. As pessoas não vão ao banheiro para se conhecer, vão para se imaginar diferentes. Quando você era pequeno, qual era o único lugar da casa em que podia se trancar sem que viesse alguém perguntar “por que você está trancado aí dentro?” O banheiro. No banheiro era o contrário, reclamavam quando você deixava a porta aberta. “Fecha essa porta que ninguém quer ver você fazendo cocô!” Assim, desde criança você se acostumou com a idéia do banheiro como um refúgio consentido, como o lugar em que você podia construir seu mundo particular sem ser interrompido. Quando gritava “Tem gente!”, não queria necessariamente dizer que a gente lá dentro era você. Podia ser um outro, inventado. Você podia ficar na frente do espelho se imaginando outro, enquanto experimentava novas posições para seu topete. Testando olhares e sorrisos para usar quando o seu outro saísse à rua, e arrasasse a vizinhança. E quem nunca se convenceu de que sabia cantar, e poderia até arriscar uma carreira como profissional, baseado no seu desempenho sob o chuveiro, com os ladrilhos ampliando a voz? A fantasia não sobrevivia ao banho, mas enquanto durava, era irresistível. Um lugar de fantasias, será isso?

 Ou talvez a fantasia mais universal sobre banheiros seja imaginá-los com outros dentro. Quando se especula sobre a vida privada de uma pessoa no fundo está-se sempre especulando sobre a pessoa na privada. Ou no chuveiro, ou cortando as unhas do pé no bidê. Porque o banheiro é o último recesso da privacidade de alguém, você não pode conhecer ninguém melhor do que no seu banheiro.

Não é uma fantasia de indiscrição gratuita, é uma fantasia de aproximação, de vencer barreiras e chegar não à nudez ou à intimidade da pessoa mas à sua semelhança conosco. E se a pessoa for uma celebridade, mais louvável é a queda das barreiras. Nos deixar espiá-la no banheiro é, no fim, um ato de generosidade de espírito e de corpo, um reconhecimento de que somos todos irmãos sob a pele – ou sob a toalha. Dentro destes banheiros fotografados, decididamente, tem gente.

 

Luis Fernando Verissimo