Desejos Transitórios



Ante a descomunal produção da indústria, a arte deslocou-se do centro da criação de imagens para uma posição periférica, convivendo com novas formas de produção visual, entre elas, a indústria gráfica, o jornalismo, a publicidade e, em especial, a fotografia em seus mais variados campos de atuação. Desde então, as fronteiras entre arte e publicidade são marcadas por frequentes porosidades e atravessamentos, com a liquidação de valores formais e novas significações em um universo ilimitado de imagens.

As fotografias de Rogério Faissal transitam em regiões aparentemente distintas, em intersecções que acentuam a ambiguidade narrativa, de um lado, com a construção de estereótipos e, de outro, com a utilização de uma topografia incessantemente registrada, em uma paródia sutil da própria paisagem carioca.

A extraordinária nitidez das imagens, a iluminação radiosa e o colorido saturado combinam-se para criar em alta resolução uma aparência irreal de célebres locais do Rio de Janeiro: a praia do Leblon, a favela da Rocinha, a murada da Urca, a rampa de Pedra Bonita, a Lagoa Rodrigo de Freitas, a praia de Copacabana e os Arcos da Lapa.

O tom hiperbólico é acentuado pela presença de mulheres dominadoras que assumem posturas igualmente exageradas, em jogos de sedução com seus submissos parceiros sexuais. O impacto visual desses tableaux vivants rigorosamente construídos aproxima-os do embuste e da simulação e que nos faz duvidar até da existência de um original. Há uma ausência perturbadora nas imagens migrantes de Rogério Faissal, deslocadas para outros contextos, sentidos e desejos.

 

Mauro Trindade