ARQUEAUTOLOGIA

 

Hoje em dia, para saciar seus desejos, o homem cria ou extingue com facilidade instrumentos e objetos. “O ato de adquirir qualquer objeto propicia a sensação de conforto, bem-estar, abundância, poder e até mesmo de status, o que para muitos significa atingir a felicidade” (BAUDRILLARD, 1995). Esse fato ocorre porque a esses objetos é atribuído um valor que vai além da sua finalidade de uso. A questão da felicidade surge como solução para a igualdade entre os seres, e a apropriação de intenso volume de bens gera uma falsa perspectiva de bem-estar de todos. Nesse sentido, a aquisição de objetos como o automóvel, é tida como símbolo do êxito social e da felicidade.

De um lado o automóvel, com sua indústria poderosíssima criando máquinas com designs incríveis, abastecidos da mais alta tecnologia como forma de seduzir seus consumidores apaixonados, de outro sua própria reputação que anda bastante arranhada em tempos de índices de poluição estratosféricos e trânsitos caóticos nas grandes cidade, afetando diretamente a vida do homem e do planeta.

Neste momento, em todo o mundo, a dependência do homem em relação ao automóvel é discutida, com o objetivo de torná-la mais racional. Menos individual. Talvez isso se deva as sensações contraditórias provocadas pelo automóvel. Associados a atributos potentes, como velocidade, força, robustez, beleza, homens e mulheres se deixam seduzir e passam a ser, no comando de seus carros, pessoas que não são. O automóvel passou de uma ferramenta da sociedade para um item de competição; e ela tornou-se dependente deste objeto.

Para agravar a situação, nos últimos 10 anos mais de 30 milhões de carros novos foram emplacados. Numa média de 3 milhões por ano. Isso significa que outros veículos deixarão de circular e serão abandonados, tendo como destino um ferro-velho. Mas paradoxalmente , num ciclo quase perfeito, restos mortais de lata, que também revelam uma fortuna em materiais a serem reciclados, virarão energia para abastecer fornos siderúrgicos que produzirão matéria-prima para a construção de novos automóveis.

 

 

 

Cemitério: Os carros abandonados, queimados, enferrujados, esperando amontoados para serem transformados em blocos de metais compactados. As imagens remetem a um cenário pós-apocalíptico, com carros parados como em um engarrafamento, num território que lhes parece estranho, abandonados pelos seus, um dia, felizes proprietários. Objetos escultóricos feitos de metais retorcidos empilhados numa longa passagem do tempo.

Ícone: Série de veículos abandonados, um ícone do mundo automobilístico mundial: a Kombi. Fotografias deste símbolo, que não é mais produzido, mas ainda desperta paixões, em uma série de fotografias, onde parecem cuidadosamente estacionados por seus donos, mas que agora sofrem a ação do tempo em suas carcaças.

Templo: Nas estradas, as paradas para abastecer ou mesmo para um lanche rápido eram obrigatórias. Porém, nesta realidade fantasma, não recebem mais os viajantes. Esquecidos, abandonados, consumidos pelo tempo, os templos de consumo das vias estão sem função e agora sofrem pela ausência. Carros já não param mais ali. Pessoas não circulam mais. Não há mais vida naquele ambiente.

Matchbox: Um painel com mais de 200 fotografias de Fuscas, colecionadas ao longo de 5 anos, é uma homenagem, com uma dose de humor, a esse incrível veículo que desperta amores verdadeiros em todo o mundo desde 1936. Nesse sentido faço aqui referencias as memórias das pessoas que, na infância, colecionavam carrinhos.

Arqueautologia: Como num sítio arqueológico, restos de automóveis, formam a imagem de um carro que sofreu com a passagem do tempo, esperando para serem descobertos e fruto de estudos do comportamento de uma sociedade em uma era remota.